terça-feira, 26 de julho de 2011

Depressão pós-parto

1 Introdução

Nos últimos anos um assunto que vem chamando a atenção dos pesquisadores do mundo infantil é o impacto da depressão pós-parto e a interação mãe-bebê, o desenvolvimento da criança em relação a isso.
Tem mulheres que permanecem com os sintomas por um período prolongado enquanto outras começam a se sentir deprimida mais tardiamente no primeiro ano após o parto. Com isso surgiu a necessidade de um estudo mais amplo.

2 O impacto da depressão pós-parto para a interação mãe-bebê

2.1 Características da depressão pós-parto e fatores associados à sua ocorrência

Os sintomas da depressão pós-parto são choro frequente, sentimentos de desamparo e desesperança, falta de energia e motivação, desinteresse sexual, transtornos alimentares e do sono, a sensação de ser incapaz de lidar com novas situações.
O nascimento de um bebê principalmente do primeiro filho tem sido considerado propício ao surgimento de problemas emocionais nos pais principalmente na mãe, no período da gravidez todas as atenções são voltadas a mãe, estas atenções são passadas a criança com o se nascimento, fazendo com que a mãe se sinta insegura com isso, o pouco suporte oferecido pelo parceiro ou por outras pessoas com quem a mãe mantém relacionamento, e não planejamento da gestação, a morte do bebê, o nascimento prematuro e as dificuldades no parto. Alem disso alguns estudos mostram uma associação entre a depressão da mãe e eventos de vida estressantes como problemas de saúde da criança, dificuldades relacionadas ao retorno do trabalho. Nas mães adolescentes o estado civil, a falta de apoio social, pouca idade, a raça negra, baixo nível educacional dentre outros.
Alguns autores ressaltaram o caráter conflituoso da experiência da maternidade como um fator de risco para a ocorrência de distúrbios mentais após o nascimento de um bebê. Nesse sentido, conceberam que tais distúrbios podem ter origem no conflito da mulher em assumir o papel de mãe, o que tornaria necessário um redirecionamento da própria identidade.
Os estudos indicam que a ocorrência da depressão pós-parto está associada a uma série de fatores, não só sociais e psicológicos, mas também fatores biológicos, obstétricos que se inter-relacionam. Além disso, a literatura aponta também para o caráter conflituoso da experiência da maternidade como um fator de risco para a depressão da mãe, uma vez que a maternidade implicaria na assunção de novos papeis e em mudanças profundas na identidade da mulher.
Os estudos sugerem também que mães deprimidas tendem a perceber a própria experiência de forma mais negativa do que mães não-deprimidas.

2.2 Depressão pós-parto e interação mãe-bebê

Ao referir-se a depressão pós-parto, alguns pesquisadores apontam que a perda da mãe que entra em depressão, não é uma perda física, como quando a mãe morre ou desaparece, trata-se de uma perda emocional, na medida em que a mãe, ao mudar sua atitude, altera os signos que a identificavam como um “objeto bom” para a criança, mesmo que a mãe se mantenha fisicamente como era, o objeto afetivamente investido pelo bebê está perdido com a depressão, na medida em que a mãe mostra-se emocionalmente mais distante.
Ressaltam ainda que a depressão materna apresenta um lado positivo: a hipersensibilidade da mãe contribui para que ela procure meios de compreender seu bebê. Assinalam ainda que a depressão pode também ser útil no sentido de auxiliar a mãe a se afastar do seu antigo mundo, com o que ganha tempo para desenvolver sensibilidade e responsividade com seu bebê.
Mostraram que até mesmo as formas mais brandas de depressão da mãe podem afetar o bebê.
As mães deprimidas são inseguras em sua capacidade materna o que leva a um afrouxamento da atenção da criança e ao desvio do olhar característico de uma microrejeição.
A experiência interativa entre bebês e mães deprimidas, torna a depressão familiar ao bebê. Quando a mãe fica deprimida, não ocorre uma mudança brutal, mais um processo progressivo de desligamento, o qual geralmente é parcial. Esse processo é representado através de microeventos, que seriam como por exemplo: o que uma mãe faz com os olhos e o rosto no exato momento em que seu bebê lhe dirige um sorriso. Nessa perspectiva, a depressão torna-se familiar ao bebê na forma de muitos microeventos repetidos.
Uma mãe deprimida caracteriza-se por pelo menos quatro experiências subjetivas:
1° - Refere a microdepressão repetida, que ocorre quando a mãe sob depressão rompe o contato visual com o bebê e não tenta restabelece-lo, o bebê tenta proximidade através da identificação e da imitação; 2° - Mostra que o bebê diante de uma situação de microdepressão, tenta fazer com que a mãe volte a vida; 3º - Refere-se a visão que o bebê tem a mãe como estando em segundo plano e tenta outras formas de estimulação, ou seja, se as alternativas de reanimar a mãe falham o bebê parte em busca de um nível apropriado de estimulação e interesse no mundo; 4º - O desejo do bebê de estar com a mãe deprimida, tem como ponte de partida o desejo de estar com a mãe deprimida. O resultado de tal esforço consiste em uma certa falta de autenticidade.
Mães deprimidas quando comparadas às mães não-deprimidas, gastam menos tempo olhando, tocando e falando com seus bebês, apresentam mais expressões negativas do que positivas, mostram menos responsividade, menos espontaneidade e menores níveis de atividade. Por sua vez, bebês de mães deprimidas quando comparados aos de não-deprimidas, exibem menos afeto positivo e mais afeto negativo, menor nível de atividade, menos vocalização, costumam distanciar o olhar, apresentam mais aborrecimento, protestos mais intensos, mais expressões de tristeza e raiva, menos expressões de interesse e uma aparência depressiva com poucos meses de idade.
Bebês com comportamento depressivo, filhos de mães deprimidas, generalizam esse comportamento com outras pessoas familiares não-deprimidas. Algumas evidências mostram que o comportamento depressivo desses bebês pode também ser observado em interações face-a-face com adultos não-deprimidos.
As evidências de que as interações face-a-face entre bebês e suas mães diferem em função da depressão pós-parto sugerem que o estado afetivo da mãe pode repercutir também nas suas vocalizações para o bebê.
As evidências de que os efeitos da depressão pós-parto ara a interação mãe-bebê dependem também da cronicidade do quadro depressivo têm levado a que se avalie o seu impacto em momentos posteriores do desenvolvimento do bebê. Os estudos realizados nessa perspectiva utilizaram situações de jogo nas quais as habilidades e comportamentos mais sofisticados da criança pudessem ser observados.
Um aspecto avaliado nesses estudos refere-se à atenção compartilhada que está relacionada ao desenvolvimento do vocabulário, sendo a base para o crescimento da comunicação e, consequentemente , dos relacionamentos. Os estudos desenvolvidos nesse sentido sugeriram que mães deprimidas podem ser menos aptas a coordenar um foco de atenção com seus filhos, na medida em que se mostraram mais preocupadas e pouco atentas às suas crianças.
O impacto da depressão materna na exploração de brinquedos pelos bebês no final do primeiro ano de vida tem sido examinado, em virtude das evidências de que essa exploração estaria associada ao desenvolvimento cognitivo da criança. Os comportamentos maternos de introduzir brinquedos e manter a atenção do bebê em um brinquedo pelo qual mostrou interesse estariam associados a um aumento na exploração de objetos por parte do bebê enquanto que o redirecionamento de sua atenção e a manifestação de intrusividade estariam relacionados a um decréscimo nessa exploração.
Há a existência de dois estilos distintos que uma mãe deprimida pode desenvolver em interação com seu filho: o primeiro é caracterizado pelo afastamento, falta de engajamento e pouca estimulação; o segundo, caracteriza-se por comportamentos intrusivos e de superestimulação. Os resultados mostraram que mães deprimidas intrusivas apresentavam mais respostas positivas, mais demonstração de brinquedos e uma tendência maior a guiarem fisicamente seus bebês que, no entanto, mostraram menos manipulação de objeto. Por outro lado, mães deprimidas que se mostraram mais apáticas, quietas e afastadas mantinham a criança brincando com mais freqüência e mostravam afeto mais restrito enquanto suas crianças demonstraram menos expressão afetiva, positiva ou não.

2.3 Depressão pós-parto e desenvolvimento infantil

Crianças de pais deprimidos têm de duas a cinco vezes maior possibilidade de desenvolver problemas emocionais e de comportamento. O impacto da depressão pós-parto deve ser considerado dentro de um contexto familiar mais amplo, considerando as características maternas, as relações mãe-criança, o funcionamento do casal e as características da criança.
O impacto da depressão na criança vai depender de como esta afeta o comportamento, a cognição e as emoções da própria mãe. A criança não é considerada um recipiente passivo dos estímulos ambientais, mas, sim, um participante ativo na formação de suas trajetórias de desenvolvimento e nos efeitos dessas trajetórias. Há também a importância da transmissão genética no desenvolvimento de problemas emocionais e comportamentais na criança, concebendo, no entanto, que outros mecanismos operam igualmente bem neste sentido: o ambiente e os efeitos da interação.
As influências patogênicas poderiam estar associadas a fatores sociais, econômicos e culturais, mas só teriam um impacto sobre o bebê na medida em que influenciassem a relação mãe-bebê. Portanto, fatores externos que poderiam afetar a saúde mental da criança teriam significado apenas quando traduzidos na linguagem interativa, dessa forma as perturbações podem estar ligadas a fatores próprios da criança, à patologia prévia dos pais, ou a uma combinação de ambos.
O impacto da depressão pós-parto para a competência social da criança foi examinado em uma investigação, na qual evidenciou que crianças de mães deprimidas foram taxadas como menos populares por seus professores, mas não apresentaram pontuações menores de autoconceito, competência no autocontrole ou nas habilidades em relacionamentos com pares quando comparadas a crianças de mães sem indicadores de depressão.
Os estudos revisados são consistentes ao afirmar que a depressão materna após o nascimento do bebê implica em importantes conseqüências para o desenvolvimento infantil, especialmente no que se refere à ocorrência posterior de problemas emocionais e de comportamento da criança. Da mesma forma, diversos autores têm enfatizado que a depressão da mãe afeta o bebê ao interferir negativamente na interação estabelecida entre eles.
3 Considerações finais

O impacto da depressão pós-parto para a interação mãe-bebê, vem sendo muito debatido e analisado por vários estudiosos, que tem trabalhado as questões do desenvolvimento infantil, como a criança é afetada e como a ação da mãe é importante para um bom desenvolvimento da criança durante o período pós-parto e o primeiro ano de vida.
A depressão materna ocorre ao longo do período pós-parto e durante o primeiro ano de vida da criança, ela ocorre a partir de fatores biológicos, obstétricos, psicológicos e sociais, em que se associa principalmente com a pouca idade da mãe, estado civil, a falta de apoio social, problemas de saúde da criança, dificuldades relacionadas ao retorno do trabalho, as atenções que durante a gestação era das mães são passadas a criança com o nascimento, fazendo com que ela se sinta insegura.
O bebê pode ser afetado pela depressão da mãe, pois ao se sentir insegura pela sua capacidade materna acaba não dando à atenção necessária a criança, o que é observado através dos microeventos, que ocorrem em pequenos momentos, mas a partir da atitude da mãe, o bebê pode se sentir rejeitado, tornando-se depressivo com poucos meses de idade, além de apresentar expressões de tristeza e raiva, menos interesse, etc.
O estado depressivo da mãe age de forma negativa na vida do bebê e no seu desenvolvimento como criança, eles tendem a mostrar menos interesse pela exploração de objetos, menos expressão de afeto positivo, além de desenvolver problemas emocionais e de comportamento, onde se evidência o comportamento social em um grupo, no qual crianças de mais depressivas são taxadas como menos populares.
É importante a avaliação precoce da depressão durante a gestação, pois assim poderá ser feita intervenções com o objetivo de auxiliá-la neste momento importante de transição. Dessa forma torna-se mais fácil o diagnóstico dos sintomas de depressão da mãe e assim pesquisar meios que tragam benefícios à relação mãe-bebê.
O atendimento precoce à mãe deprimida representa a possibilidade da prevenção do estabelecimento de um padrão negativo de interação com o bebê, o qual pode trazer importantes repercussões para o seu desenvolvimento da criança.

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