terça-feira, 26 de julho de 2011

Trechos do livro: A importância das Histórias

Obs.: Infelizmente não me lembro o nome e referência do livro que foram tirados os trechos, mas assim que descobrir, informarei a todos no meu blog.




A importância das Histórias

Ah, como é importante para a formação de qualquer criança ouvir muitas, muitas histórias... Escutá-las é o início da aprendizagem para ser um leitor, e ser leitor é ter um caminho absolutamente infinito de descoberta e de compreensão do mundo...
O PRIMEIRO CONTATO DA CRIANÇA COM UM TEXTO É FEITO ORALMENTE, através da voz da mãe, do pai ou dos avós, contando contos de fada, trechos da Bíblia, histórias inventadas ( tendo a criança ou os pais como personagens),
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livros atuais e curtinhos, poemas sonoros e outros mais... contados durante o dia - numa tarde de chuva, ou estando todos soltos na grama, num feriado ou domingo - ou num momento de aconchego, á noite, antes de dormir, a criança se preparando para um sono gostoso e reparador, e para um sonho rico, embalado por uma voz amada.
Ler histórias para crianças, sempre, sempre... É poder sorrir, rir, gargalhar com as situações vividas pelas personagens, com a idéia do conto ou como o jeito de escrever dum autor e, então, poder ser um pouco cúmplice desse momento de humor, de brincadeira, de divertimento...
É também suscitar o imaginário, é ter a curiosidade respondida em relação a tantas perguntas, é encontrar outras idéias para solucionar questões (como as personagens fizeram..). É uma possibilidade de descobrir o mundo imenso dos conflitos, dos impasses, das soluções que todos vivemos e atravessamos - dum jeito ou de outro - através dos problemas que vão sendo defrontados, enfrentados (ou não), resolvidos (ou não) pelas personagens de cada história (cada uma a seu modo)... É a cada vez ir se identificando com outra personagem (cada qual no momento que corresponde àquele que está sendo vivido pela criança)... e, assim, esclarecer melhor as próprias dificuldades ou encontrar um caminho para a resolução delas...
É ouvindo histórias que se pode sentir (também) emoções importantes, como a tristeza, a raiva, a irritação, o bem-estar, o medo, a alegria, o pavor, a insegurança, a tranquilidade, e tantas outras mais, e viver profundamente tudo o que as narrativas provocam em quem as ouve - com toda a amplitude, significância e verdade que cada uma delas fez (ou não) brotar... Pois é ouvir, sentir e enxergar com os olhos do imaginário!
É ATRAVÉS DUMA HISTÓRIA QUE SE PODEM DESCOBRIR OUTROS LUGARES, outros tempos, outros jeitos de agir e de ser, outra ética, outra ótica... É ficar sabendo História, Geografia, Filosofia, Política, Sociologia, sem precisar saber o nome disso tudo e muito menos achar que tem cara de aula... Porque, se tiver, deixa de ser literatura, deixa de ser prazer e passa a ser Didática, que é outro departamento (não tão preocupado em abrir as portas da compreensão do mundo).
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Como contar histórias

A ensaísta cubana Alga Mariña Elizagaray diz uma coisa clara e importante: " O narrador tem que transmitir confiança, motivar a atenção e despertar admiração. Tem que conduzir a situação como se fosseum virtuose que sabe seu texto, que o tem memorizado, que pode permitir-se o luxo de fazer varriações sobre o tema". ( ELIZAGARAY, Alga Mariña. El poder de la literatura para niños y jovenes. Havana, Letras Cubanas).
Claro que se pode contar qualquer história à criança: comprida, curta, de muito antigamente, ou dos dias de hoje, contos de fadas, de fantasmas, realistas, lendas, história em forma de poesia ou de prosa... Qualquer uma, desde que ela seja bem conhecida do contador, escolhida porque a ache particularmente bela ou boa, porque tenha uma boa trama, porque seja divertida ou inesperada ou porque dê marge pra alguma discussão que pretende que aconteça, ou porque acalme uma aflição... O critério de seleção é do narrador... e o que pode suceder depois depende do quanto ele conhece suas crianças, o momento que estão vivendo, os referenciais de que necessitam e do quanto saiba aproveitar o texto (enquanto texto e enquanto pretexto...).
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Contar histórias... só para quem não sabe ler?

Ouvir histórias não é uma questão que se restrinja a ser alfabetizado ou não... Afinal, adultos também adotam ouvir uma boa história, passar noites contando causos, horas contando histórias pelo telefone (verdadeiras, fictícias, vontades do que aconteça...), por querer partilhar com outros algum momento que não tenham vivido juntos.... Quantas vezes, no meio dum papo cálido e próximo, ou agitado e risonho, alguém diz: "Ei,  eu já te contei essa história? Não??? Nossa... Pois é..."
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E mesmo as crianças maiores, que já sabem ler, também podem sentir grande prazer no ouvir... Afinal, não ouvem discos, não escutam rádio (sem nenhuma imagem)?! Alga Mariña Elizagaray, no seu livro já citado, lembra: "Não devíamos esquecer nunca que o destino da narração de contos é o de ensinar a criança a escutar, a pensar e a ver com os olhos da imaginação. A narração é um antiquíssimo costume popular que podemos resgatar da noite dos séculos, mas nunca tecnificá-la com elementos estranhos a ela. Usar slides ou qualquer outro meio de ilustração e distração é interferir e neutralizar a sua mensagem, que é sempre auditiva e não visual".
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Ouvir histórias é viver um momento de gostosuras, de prazer, maravilhamento, sedução... O livro da criança que ainda não lê é a história contada. E ela é (ou pode ser) ampliadora de referenciais, poetura colocada, inquietura provocada, emoção deflagrada, suspense a ser resolvido, torcida desenfreada, saudades sentidas, lembranças ressuscitadas, caminhos novos apontados, sorriso gargalhado, belezuras desfrutadas e as mil maravilhas mais que uma boa história provoca...(desde que seja boa).
Uma das atividades mais fundantes, mais significativas, mais abrangentes e suscitadoras dentre tantas outras é a que decorre do ouvir uma boa história, quando bem contada. Como disse Louis Paswels: "Quando uma criança escuta, a história que se lhe conta penetra nela simplesmente, como história. Mas existe uma orelha detrás da orelha que conserva a significação do conto e o revela muito mais tarde".
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A Literatura também informa

A CRIANÇA, DEPENDENDO DE SEU MOMENTO, DE SUA EXPERIÊNCIA, DE SUA VIVÊNCIA, DE SUAS DÚVIDAS, PODE ESTAR INTERESSADA EM LER SOBRE QUALQUER ASSUNTO... A questão é saber como o tema é abordado: se em medo, sem reservas, sem fugir das questões principais ou fazer-de-conta que não existem... Ou, colocando num parágrafo, cheio de evasivas, mil explicações, às vezes até confusas ou atabalhoadas, não dando nem tempo para que a criança-leitora pense, elabore, resolva, se identifique, concorde, discorde, critique, negue etc. a forma como tal ou qual questão está sendo explicada/ proposta/ vivida/ resolvida/ lidada.
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QUALQUER ASSUNTO PODE SER IMPORTANTE,  e isso não depende apenas da curiosidade da criança ( se não estiver particularmente interessada no tema, lerá sem maiores envolvimentos... e dia virá em que aquele livro lhe será revelador e esclarecedor!).  Depende também do desenvolvimento do mundo, das contradições que a criança vive e encontra à frente, se se envolve com elas ou apenas observa os fatos, e para isso é preciso estar atento e poroso a tudo o que acontece... (há temas datados, que pela pró-
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pria evolução dos costumes deixaram de ser polêmicos, pois, dum jeito ou de outro, a civilização os integrou... há outros que estão surgindo devagarinho, há outros efervescentes, sobre os quais o momento de falar urge e se impõe).
Mas, sobretudo o assunto tem que ser importante, mobilizador, verdadeiro para o autor, para que o trate de modo inteiro, digno... Senão vira uma grande bobagem, pois o preconceito surge nas entrelinhas, a não-convicção do escritor se flagra num parágrafo ou capítulo inteiro, se desmente pela boca duma personagem, se percebe o mal-estar do autor... Quer dizer, abordou um tema contemporâneo, mas de modo antigo, mofado, boboca... Se violentou e não esclareceu nenhum leitor... Como disse uma vez o sábio Guimarães Rosa: "O trágico não vem a conta-gotas", ou seja, quem quer tocar em algo verdadeiramente trágico tem que se mergulhar de cabeça, jorrando o vidro todo. Senão, a coisa perde a dimensão e se torna um melodrama... E aí, o que era pra chorar, dá é pra rir...
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