terça-feira, 26 de julho de 2011

Trechos do livro: "Literatura Infantil e Juvenil"

Literatura Infantil e Juvenil
Vivências de Leitura e Expressão Criadora



Na etimologia da palavra ler repousa uma abrangência de sentidos. Da origem, retira-se a significação de colher, que pressupõe o intercambio de quem colhe com o que se traz em cada ato de colheita (de coisas momentaneamente a coisas cultivadas com mais tempo e cuidado).
O sujeito, observador do mundo, recolhe significados ou, como se estivesse em face de um espelho, projeta no mundo o seu olhar que vê até onde a própria vista alcança.
Tomando da etimologia da palavra ler o seu sentido próprio, registrado no dicionário como ajuntar, colher e, daí, recolher, (Dicionário Escolar Latino-Português, Departamento Nacional de Educação/ MEC, p.556.) entendemos que ler e escrever são atos de participação da subjetividade, que se envolve numa relação de intercambio com o que se apresenta permanentemente aos olhos (equivalendo, de forma metonímica, ao corpo inteiro que percebe e responde a todo condicionamento). Se os condicionamentos externos fortalecem os canais de recepção do sujeito, ele recolherá e devolverá modificado tudo aquilo que recebe, registra e transforma numa atitude de abertura, desconfiança e atenção em face do mundo.
Falando-se em ler e escrever, a orientação que a escola dá ao processo alfabetizador é fator determinante de uma ótica de leitura que se instaura no sujeito criticamente, ou não. Se a alfabetização toma direcionamentos críticos, tanto no seu ponto de partida como no seu prosseguimento, ela é capaz de assegurar modificações básicas nos níveis individual e social. Ela estará respondendo negativamente à pergunta colocada pelo escritor e arte-educador Bartolomeu Campos Queirós no seu artigo “Alfabetizar: juntar ou separar letras?”(no Suplemento Pedagógico n°8, Jornal da Educação, Belo Horizonte, março de 1984). Será compreendida, como aborda o escritor, numa perspectiva ampla, interminável, ilimitada, porque o sujeito é leitor antes de entrar na escola e continuará sendo quando não estiver mais aí.
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O livro dentro do espaço escolar, tendo finalidade alfabetizadora, precisa atuar significativamente, no sentido de facultar o alargamento de visão, que possibilite uma leitura mais lúcida de si e de tudo com que o sujeito conviver, atingindo o reconhecimento consciente do eu, ao mesmo tempo distinto e parte do todo.
No livro Indez (editora Miguilim), Bartolomeu Campos Queirós remonta aos tempos de aprendizagem da leitura de sua personagem Antônio, atentando para os segredos que as letras guardam e para os tantos sentidos possíveis dos silêncios. Tudo o que constitui linguagem pode estar nas entrelinhas ou se escrever e ler por outros sinais ou signos, traçados não com palavras:
“Na escola a professora ensinava leitura. Foi sem esforço que o menino aprendeu. Ele já conhecia que entre as letras e seus silêncios podia-se saber muito mais longe. Era possível viajar mundos distantes. Mundo que o olhar não alcançava, mas o livro trazia. E daí, para Antônio escrever, bastou ter apenas um lápis”.(Do livro Indez , de Bartolomeu Campos Queirós, Editora miguilim, p.86.)
O menino Antônio habita um universo que tem o poder de ensinar-lhe – através da familiaridade com a natureza que ele desvenda – a condição de ser sensível, atento, observador, participante. Então, muito antes de entrar na escola, ele via, tocava, ouvia e dava respostas.
O que Bartolomeu vai tratando literariamente no Indez, Paulo Freire aborda no seu livro A importância do ato de ler, conceituando o ato da leitura, em momentos como este:
“(...) A leitura do mundo precede a leitura da palavra, daí que a posterior leitura desta não possa prescindir da continuidade da leitura daquele. Linguagem e realidade se prendem dinamicamente. A compreensão do texto a ser alcançado por sua leitura critica implica a percepção das relações entre o texto e o contexto”. ( extraído do livro A importância do ato de ler, de Paulo Freire, Editora Autores Associados/ Cortez Editora, p. 11-2.)


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No Indez, Antônio e as personagens, que participam de uma realidade simples e natural, adquirem uma ótica sensível, fruto da intensidade de pequenas vivencias que se acumulam. Eles se preparam para um entendimento maior que antecipa ensinamentos:
“Os irmãos, atentos a tudo, aprendiam a lei das coisas. O pai e a mãe eram a primeira escola. Eles sabiam lições que só podiam ter sido lidas ou escutadas de pessoas muito sábias, que viviam em reinos de primavera.”
Naquele universo sem letras escritas, Antônio era iniciado a ler, com fantasia e sensibilidade, partilhando da intimidade dos seres e dos movimentos do mundo:
“Seus brinquedos, ele mesmo os fazia com frutos e sementes encontrados nos caminhos que levavam ao paiol, ao curral, ao riacho, ao carnaval. Outras vezes, observar as mágicas da natureza era um divertimento. Cismava com o trabalho das abelhas, as grandes cargas carregadas pelas formigas. Amava o amor lambido das vacas pelos bezerros, o crescimento das caixas de marimbondo na beira do telhado indicando fortuna, as flores chegarem a frutos, as pedras roladas servindo de colchão macio para correr das águas”.
Nessa perspectiva da convivência livre e aberta com tudo o que faz parte do seu universo imediato, Antônio penetra na linguagem dos seres e recolhe sentidos que a sua subjetividade permite. Está apto, portanto, a não perder a relação profunda com que se deparar daí para diante:
“Sua maneira de reparar nas coisas provoca um olhar lento sobre tudo. E assim, vendo devagar, aprendeu a conviver com os mistérios, parecendo não querer decifra-los, para que não perdessem em encantos”.
O escritor assume, no ato da escritura, sua condição primeira de leitor que revela o que lhe foi ensinado pela vida (deixando marcas duradouras), sabendo reaproveitar o que colheu e recolheu nos traçados não só de linhas com que se fazem os livros. O leitor, por sua vez, quando habita o texto do outro, instala-se com tudo o que tem de bagagem e reescreve a obra, que, no ato de leitura, já lhe pertence.
O livro Indez nos faz reconhecer que nada é emitido ou colhido em vão, e que rabiscos, feitos à mão ou não, trazem sentidos que se insinuam. Não é através de signos lingüísticos que os meninos, nessa obra, se comunicam com os pais, mas com um rabisco de olhos, “buscando autorização para comer mais um doce, tirar mais uma bala da fruteira exposta na mesa bem no centro da sala”.
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Relacionando a metáfora “rabiscavam os olhos” à palavra desconfiar, que é aliada semântica de ler, compreendemos que não só os meninos de Indez rabiscavam – equivalendo a ler – mas todos nós, adultos alfabetizados, que temos o domínio da palavra, fazemos rabiscos no nosso contato com os seres e as coisas, escrevendo no mundo os nossos sentidos e, também, colhendo. Por isso, ler supõe um olhar de reconhecimento, mas não só sobre letras e sons. É prestar atenção para entender, captar, desvelar; é ouvir e silenciar-se, quando no interior ficam guardados os sentidos recolhidos; é imaginar, indo além do que os olhos alcançam e do que os limites reais oferecem; é entrar nas coisas, colocar-se nelas e senti-se enriquecido nessa relação; é envolver-se sem restrições e compreender o que se buscou. Assim, com o envolvimento da subjetividade atenta, é que se realiza uma verdadeira leitura de si mesmo, do mundo e dos outros seres. Com o olho sensível lê-se “tudo de todos os lados”, como o Antônio, de Bartolomeu. Por essa ótica, ler é ato de comunicação e de comunhão, que significa dimensionar idéias, sensações, sentimentos e sonhos.
Quando nos pomos a questionar o compromisso da escola de introduzir leitores no universo dos livros, não conseguimos entender que ela possa conduzi-los numa perspectiva que não seja critica, já que ela é um espaço alfabetizador por excelência. Questões como: o que ler, ler onde, pra quê, para quem, com quem, e ler o quê?, devem ser feitas com lucidez, para que o projeto de leitura se desenvolva de forma rica e coerente com a própria semântica da palavra ler. Atendendo à complexidade e à abertura da palavra, reconhecendo as suas significações de origem, a escola entenderia que colher ou recolher implicam o sujeito que se vê na condição participativa em face do fora de si. E a leitura, nestes termos, não se dá somente através de livros e de letras, mas também de diferentes signos, sinais e até de silêncios.
Se se admitisse, com ampla consciência, que a todo momento e através de vários códigos o sujeito é um leitor, ler, em termos fundamentais — fosse através de números, da geografia, da arte... —, seria ato sempre humano, uma vez que colher sentidos implicaria respostas próprias, pessoais, considerando o todo do ser que percebe, pensa, sente e imagina.
Numa escola em que todos os educadores se ocupassem da formação de leitores assim, todo livro e todas as vivencias seriam instrumento humanizador e libertador, em conformidade com a concepção de Ezequiel Theodoro da Silva:
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“A leitura critica é condição para a educação libertadora, é condição para a verdadeira ação cultural que deve ser implementada nas escolas. A explicação desse tipo de leitura, que esta longe de ser mecânica (isto é, não geradora de novos significados), será feita através da caracterização do conjunto de exigências com o qual o leitor crítico se defronta, ou seja, CONSTATAR, COTEJAR e TRANSFORMAR.”(Em O ato de ler - fundamentos psicológicos para uma nova pedagogia da leitura, de Ezequiel Theodoro da Silva, Editora Autores Associados/ Cortez Editora,p.79)
Retornando ao registro de significados da palavra ler, do dicionário, tomamos outras possibilidades, como: seguir as pegadas; percorrer as florestas, o caminho; costear; desligar; escolher; eleger; e, finalmente, apoderar-se de, roubar.(Dicionário Escolar Latino-Português, Departamento de Educação/MEC, p.556.)
Com relação à leitura especifica de livros de literatura, o trajeto do leitor crítico deve mesmo ser este: seguir as pegadas do que o criador propõe, mas não para descobrir intenções, e sim, percorrer o emaranhado da floresta, ou das linhas do livro, deslizando pelos sentidos, para decifrar, escolher, eleger uma leitura, como ato de recriação. Então, o leitor torna-se dono da obra, rouba-a do criador para ser sua no prosseguimento criativo, sensível, que é o ato de ler.
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Ler, ver, ouvir... criar e totalizar

O mundo dos livros é mesmo abracadábrico. Ele permite a diversificação de caminhos. De uma história e de um poema tiram-se vários, como se tiram objetos surpreendentes da cartola de um mágico. A palavra literária e as artes todas têm virtudes cabalísticas, construindo símbolos de sentidos inesgotáveis.
A escola que atua acreditando que é necessário oferecer conhecimentos, informações, técnicas etc. à mente da criança e do jovem, mas é essencial humanizá-la pela sensibilidade e alargá-la pela imaginação, entende que a cabeça aprende melhor quando é com o coração. Faz parte também dessa escola que forma pessoas sensíveis, abrir espaço para o sonho dentro e fora do homem. Por esse prisma libertador, vive-se a integração que soma e a transformação que amplia. A educação que não faz ultrapassar a percepção do absoluto empobrece, limita, aliena e escraviza. Mas a que mostra a relatividade faz a cabeça muito maior, e nela caberá muito mais. Por isso, como poetiza Guimarães Rosa, a gente tem de necessitar de aumentá-la para o total.
Na parte final a que chegamos agora, tudo se reúne, reiterando o caráter das idéias e das vivências que ocuparam todas as linhas deste livro, no sentido de que o que há é uma coisa, isto é, o livro como espaço aberto, habitado de modo diverso por cada um.
Mostramos de várias formas - e reafirmamos nas considerações, propostas e ampliação de vivências criativas que compõem este último segmento - que as linguagens de arte e de comunicação são múltiplas. Se a escola pretende dar a medida do relativ, convém, ainda, que ela dê permissão a que: o velho caminhe  com o novo, o popular participe do literário, o oral seja recuperado nas linhas escritas e a atualidade mantenha a tradição.
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Quanto maior o convívio com variadas formas de expressão, e mais variados os meios de se chegar a elas, mais rico e sólido se torna o repertório do homem e mais disponível se torna a sua recepção. Quanto mais se ler - livros e tudo o que se dispõe aos olhos que recolhem, armazenam e transformam -, maior será o mundo, mais próximas estarão as pessoas e mais curtas, as distâncias.
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Iniciação do Pré-leitor:
Ver, Ouvir, Tocar e Sentir

A aquisição linguística por parte da criança é progressiva, tanto em termos orais, quanto escritos.
Através dos sentidos, desde os seus primeiros meses, ela é sensível às influências do mundo. Embora o modo de se relacionar com a realidade seja inicialmente caótico, seu universo registra e reage a ruídos, imagens, movimentos, toques.
Mesmo não lendo a palavra escrita, e não tendo total domínio linguístico oral, o interior ou o corpo (como um todo) do ser infantil demonstra que é presente no mundo e é receptivo às estimulações externas.
A medida da compreensão do que lhe é exterior corresponde ao nível de maturidade do estágio em que a criança se encontra. Importa considerar que, desde que esteja no mundo e que faça parte dele, é ser presente, com possibilidades de sentir, captar, intuir e responder de acordo com desejos, anseios, sensações.
À expansão da vitalidade criadora da mente e ao amadurecimento de uma percepção sensível são fundamentais os estímulos favoráveis ao imaginário infantil. A linguagem da arte pode provê-lo de símbolos que alimentam a visão mágica da vida. O repertório folclórico, a poesia, os contos fabulosos, a música fertilizam  a fantasia e embalam a alma da criança, com ritmo, sonoridade, musicalidade, sintonizando-a num compasso lúdico, que é o da infância.
Dar o livro à criança como brinquedo é cultivar nela uma relação prazerosa, agradável e afetiva com o que ele veicula de valioso, em emoções e fantasias, para a interioridade humana.
O animismo infantil leva a criança a transformar o inumano em humano, o real em fantástico, o absurdo em natural e o sonho em verdade. A arte compõe-se de magia, sonho, absurdo com roupagem de realidade, e a literatura, como parte dela, projeta um mundo de encantamento, capaz de fazer sonhar.
Para crianças menores, sobretudo, o sonho é mais forte que a realidade, ou seja, elas não concebem o real racionalmente, mas de maneira sensível, imaginativa e intuitiva.
Ler, ver, ouvir, tocar o livro com todos os sentidos, entrar nele para vislumbrar encantos e novidades, tecer surpresas, imaginar irrealidades e viver emoções reais... Esse caminho é aberto ao novo, às camadas profundas, irracionais, que apreendem, intuem, armazenam imagen, sensações e sentimentos. As relações das crianças menores com o livro não se estabelecem em nível de entendimento racional, e a fruição se dá por vias afetivas e sensoriais.
Estimular os sentidos é uma maneira de educá-los e despertá-los, para que possam pôr o sujeito em contato mais profundo e atencioso com tudo. Bem sintonizados, olhos, ouvidos, mãos... a mente e o coração estarão sempre alerta.
As cantigas de ninar e a voz dos pais em conversas afetuosas e brincadeiras com o bebê são as fontes primeiras que despertam os sentidos positivamente. Quando cresce o entendimento para as palavras articuladas, as histórias contadas, no colo ou na cama, são capazes de fazer a criança dormir, embalada pela sonoridade das palavras.
A afetividade que existe na relação da professora com as crianças menores, na escola, é decisiva para introduzi-las no mundo fantasioso e emocionante histórias, dos poemas, dos jogos, das cantigas, dos brinquedos folclóricos e de músicas acessíveis à sensibilidade infantil. Educador e criança farão parte de uma mesma realidade, que integra os sentidos, as idéias, as fantasias e as emoções.
A oralidade e o universo do livro são dois campos ricos. Tanto o folclore como a literatura infantil devem ser explorados, visando à recreação. E quando a aprendizagem da linguagem escrita começar a se sistematizar, as crianças já estarão familiarizadas com o mundo das letras, das palavras, das frases e dos sentidos na estrutura. A prontidão para a leitura terá sido adquirida também enquanto capacidade de um diálogo do sujeito com o universo dos significados articulados no espaço do livro. Treinar o leitor de modo a ter apenas o domínio de significantes não é o suficiente.
A convivência com as possibilidades de sentidos, que fazem com que  obras de arte infantil ( com textos ilustrativos ou não, ou livros de imagens) sejam abertas, assegura a prontidão para a leitura que significa mais do que estar apto a juntar letras e sons. O alfabetizador que admite a amplitude e a complexidade do processo de alfabetização, orienta o leitor para relações criativas, o que supõe, inclusive, o contato com a palavra simbólica dentro do livro. Levado a interagir com signos verbais, o sujeito não pode

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 ser um mero reprodutor programado, se se considerar a alfabetização, como pensa Emília Ferreiro, "muito mais que a aprendizagem de um código de transcrição". ( Reflexões sobre a alfabetização, de Emília Ferreiro, Editora Cortez/Editora Autores Associados, p.102.)
Histórias tradicionais e tantas outras da produção brasileira moderna, a poética infantil, o material folclórico - registrado em livros com trava-línguas, parlendas, adivinhações, trovas, jogos de palavras, aproveitamento lúdico de idéias e sons etc.- são fontes de que o educador pode se valer, diariamente, para:

  • brincar com as crianças;
  • contar histórias com o apoio do livro, oralmente (adaptadas pelo educador) ou através de material gravado;
  • ler poemas várias vezes e cantá-los ou repeti-los com a participação das vozes das crianças;
  • imaginar e criar histórias individuais e coletivas para livros de imagens;
  • ouvir histórias e vivenciá-las em jogos dramáticos;
  • deixar, na sala, livros em  lugares acessíveis às crianças (cestas, prateleiras, encaixes grandes com plástico transparente ou pano, pendurados na parede), para que elas toquem, folheiem, leiam as imagens quando se interessarem.
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Livros de imagens constituem material rico para ser explorado pelo olhar e pela imaginação das crianças. As imprevisibilidades estão nas imagens, e quem constrói a narrativa é o próprio leitor, que desvenda significados para os desenhos, escrevendo, com os  olhos, o texto.
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Invertendo a Ordem Social: 
O Imaginário no Poder

Numa sociedade como a brasileira, estruturada sobre bases colonizadoras e capitalistas que enfraquecem a visão crítica de si mesmo e da realidade e que condicionam os padrões de comportamento à base da massificação, não prevalece a valorização da linguagem da sensibilidade e da fantasia. Essa linguagem - da arte e dos livros - tem o poder de gerar mais lucidez e maior resistência contra os riscos de uma dominação desumanizadora que se impõe como ordem social na realidade movida pelo pragmatismo materialista.
Ezequiel Theodoro da Silva, no seu livro Leitura e Realidade Brasileira, faz um trocadilho de efeito questionador, referindo-se à "lei-dura" como sendo:
"...um conjunto de restrições agudas que impede a fruição da leitura do livro por milhões de leitores em potencial. É essa mesma lei-dura que vem colocar a leitura numa situação de crise, num reflexo de crises maiores presentes em nossa sociedade".( extraído do livro Leitura e Realidade Brasileira, de Ezequiel Theodoro da Silva, Editora Mercado Aberto, p.16.)
O autor prossegue, justificando a conveniência de se manter os livros inacessíveis ao povo, afirmando que eles:
"...quando bem selecionados e lidos, estimulam a crítica, a contestação e a transformação - elementos estes que colocam em risco a estrutura social vigente e, portanto, o regime de privilégios".
pg.:296 
Não é justo pretender-se que apenas à escola caiba o compromisso de subverter a estrutura social, criando uma nova ordem. Uma mudança nos padrões de submissão e inconsciência pode contar, sem dúvida, com os efeitos críticos da leitura que não competem somente à escola. Eliana Yunes, articulando um questionamento sobre uma política nacional de leitura, situa a amplitude da responsabilidade, lembrando que:
"A leitura não é exclusividade de escolas e bibliotecas e tão pouco corresponde ao simples deciframento do pensamento alheio. Ler é dialogar com o pensamento do outro, criar sentidos, interpretar consoante sua experiência e visão do mundo".( do artigo "Por uma Política Nacional de Leitura", publicado no jornal Pravaler, Rio de Janeiro, n.9, p.6.)
Diferentes setores de educação e cultura do país, órgãos, associações, sindicatos etc. que se comprometem com ideais e interesses coletivos, profissionais atuantes em diversas áreas (religiosa, técnica, científica, social) podem colaborar para a alteração da ordem instituída, auxiliando na formação de uma mentalidade mais comunitária, cívica, menos domesticada. A leitura, em termos bem amplos da sua concepção crítica, passa pelos caminhos da consciência de cidadão da Pátria e do mundo.
Ainda que os educadores brasileiros, no geral, pertençam ao plano dos não-privilegiados - o que dificulta a sua qualificação profissional que se faz, inclusive, com investimentos em livros, cursos, pesquisas etc. -, espera-se que a partir deles alastrem-se novas mentalidades, com maior nível de consciência. A educação promovida pelas escolas não é suficiente para, sozinha, revolucionar todo o contexto brasileiro, mesmo porque as crianças e jovens que ela alcança não equivalem à maioria do país.
Ainda que tenhamos absoluta certeza de que a crise da leitura e da linguagem contextualiza-se, como indica Eliana Yunes, como
"... produto da crise geral de uma sociedade discriminadora que não oferece igualdade de oportunidade de acesso à cultura e da situação de dependência em que se encontram países como o nosso." 
 sejamos nós os promotores de leitura na escola, parcialmente responsáveis pela instauração de uma ordem nova, construída a partir da reflexão e da abertura das comportas do imaginário. Já fará alguma diferença na transformação social, se uma sala de aula, uma biblioteca ou uma escola, por onde passarmos,
pg.:298
for um exemplo de prática de leitura democrática que contrarie o sistema de dominação - que se adequa à realidade consumista predominante. Através dessa prática estaremos sendo participantes de uma história de liberdade, porque bem lembra Ligia Chiappini M. Leite:
"...a obra é também memória e reconstrução, História. E nós, leitores, para realmente ler, temos de assumir a nossa condição de co-autores da obra lida, de intérpretes sem nos prendermos aos dogmas da leitura adequada, da interpretação verdadeira, venham elas dos manuais, dos críticos, dos pesquisadores universitários ou do colega mais próximos". (Retirado do Manual do Seminário Nacional de Literatura Infantil e Juvenil/1988, São Paulo.)
Não podem ser outros os caminhos de uma educação libertadora que acredite no poder do imaginário. Por este prisma poderão ser acesas algumas luzes que farão reconhecer a nova ordem, em cujo domínio estará o homem que deixa prevalecer a sua capacidade de pensar, sentir e sonhar.
Como poetizou a escritora grega Rena Kathaios na sua mensagem do Dia Internacional do Livro (1991): " cada livro de qualidade é um vaga-lume que acende na escuridão e que nunca se apaga". Cada luz acesa que se some a outra vai tornando mais forte o poder, que pode se inverter, na medida em que a consciência humana passa a enxergar, ainda que como vaga-lume na escuridão.
pg.:298

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