terça-feira, 26 de julho de 2011

Trechos do Livro: "Literatura infantil: gostosuras e bobices"

A NATUREZA DA LITERATURA INFANTIL
A Literatura e os Estágios Psicológicos da Criança*

Viver como uma criança é ideal quimérico e inatingível de todos os homens há milhares de anos.
Viver como uma criança significa permanecer fiel á natureza humana, ser eu em expansão e movimento contínuos, ser eu em permanente processo de mutação. Isto inclui a sintonia com o mundo em extrema profundidade, desde os processos mentais mais primários e desde as emoções mais indiferenciadas a menos sujeita às influencias ambientais e à aprendizagem.
(Marlene Rodrigues, Psicóloga Educacional)

É no sentido de não se fraudarem (mas pelo contrário, se estimularem) as relações essenciais que existem, naturalmente, entre a criança e o mundo que a cerca (E a educação tradicional bloqueava), que se vêm articulando todas as práticas de aprendizagem contemporâneas.
Obedecer às diversas etapas do desenvolvimento infantil (estabelecidas pelas pesquisa da Psicologia Experimental), vem sendo a preocupação fundamental de todos que têm a seu cargo a educação de crianças. Daí que no setor da literatura, se tende equacionar a natureza da matéria literária às faixas etárias correspondentes a cada etapa, e disso resultado a classificação dos livros infantis.
Apesar das óbvias diferenças que existem entre crianças da mesma idade (pois o crescimento físico, o desenvolvimento psíquico-intelectual, a evolução da afetividade, da sensibilidade e dos interesses em geral dependem diretamente de varias causas interligada), conseguiu-se estabelecer fases que são consideradas normais no desenvolvimento da criança.
evidente que, em face das novas solicitações que atuam sobre homens e crianças, e que o mundo contemporâneo continua forjado a cada dia, as conclusões ou premissas que estão na base dos estudos de psicologia infantil, forçosamente, terão que ser revistas em breve. Por enquanto a compreensão da criança ainda se faz através da perspectiva estabelecida por Piaget. Até quando será válida?).
Procurando sintetizar as muitas e diferentes interpretações de cada etapa no desenvolvimento da criança e o tipo de literatura mais adequada a cada uma, temos:

* Primeira Infância: Movimento e Emotividade
(dos 15/18 meses aos 3 anos)

Depois da fase da maturação (que vai até os 15/18 m. e corresponde ao inicio do desenvolvimento mental, simultâneo ao crescimento orgânico), surge a fase da “invenção da mão”. Isto é, a criança inicia seu reconhecimento da realidade pelo tato. Suas reações caracterizam-se pelo movimento, pela necessidade de expansão motriz, pela descoberta de si mesma e dos outros, pela necessidade de contatos afetivos (principalmente com a mãe) e pelo egocentrismo... É o momento em que, ao mesmo tempo em que descobre as formas concretas do mundo e dos seres que a rodeiam, a criança começa a conquista da linguagem.
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A literatura mais indicada nessa fase inicial é a que se identifica com o jogo. Livros de imagens (ou álbuns de figuras) que estimulem a percepção visual e motriz dos pequenos, ou que atendam de maneira geral às necessidades básicas dessa fase devem fazer parte dos brinquedos da criança. Desde o material (= pano, plástico, papel grosso...) com que é feito o livro, até a natureza das figuras ou a qualidade das ilustrações, tudo deve obedecer aos conhecimentos de psicologia, pedagogia e literatura já organizados a respeito. (Obviamente, a música e o canto fazem parte da iniciação literária ou cultural dessa fase).

* Segunda Infância: Fantasia – Imaginação
(dos 3 aos 6 anos)

Fase particularmente lúdica, é marcada pelo predomínio do pensamento mágico.
A fantasia tem, daqui por diante, até os seis anos, uma notável importância, uma vez que o pensamento infantil é, nestas idades, absolutamente mágico, todo impregnado por elementos do fantástico e do maravilhoso. A criança não faz discriminações entre a realidade externa e os produtos de sua fantasia. Para ela, realidade é o que ela está vivendo, o aqui e o agora. Para ela não existe o que foi nem o que será. O tempo para ela não tem a menor significação, não há passado nem futuro. A vida é o momento presente. (M. Rodrigues, op. Cit., p. 25)
Os livros mais adequados a essa fase devem ainda apresentar muitas imagens, cujo significado pode ser sugerido ou complementado com textos curtos e educativos, pois esta é também a fase de consolidação da linguagem, quando as palavras devem corresponder às figuras. Daí que a natureza das ilustrações devam ser "realistas", isto é, corresponder à verdade do que as estórias estão contando...
É esta a etapa chamada, por Piaget, de animista... porque, nela, a criança tende a considerar todas as coissas como dotadas de vida, de vontade e de intencionalidade. Inclusive os nomes das coisas são tomadas como se fossem as próprias coisas.
Livros que representem elementos do seu mundo familiar e também livros que falem do maravilhoso devem se completar no interesse da criança, que nesta fase, é ainda "ouvinte" e "leitora" de imagens. Recomendam-se pois, estórias que reproduzam situações familiares, contos de animais, fábulas simples ou os contos maravilhosos onde existam castelos encantados, onde surjam fadas ou bruxas a simbolarizarem o destino; ou talismãs que resolvem todos os problemas; reis, rainhas, princesas e principes que encarnem os desejos básicos de amor, poder, lealdade, beleza, etc. Lugares maravilhosos, animais que falem, seres extraordinários, todo um mundo animado de poderes fora do comum... são os ingredientes que detêm, nesta fase, o interesse maior do pequeno futuro leitor. Estórias breves, "situações" bem claras e pitoresca devem ser a forma predominante.
Analisando a importância do incentivo à fantasia infantil, nessa fase, MArlene Rodrigues diz:
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As estórias infantis, a música e o desenho têm, durante toda a infância, especial importância na formação geral do ser humano e atuam como instrumentos de terapia e catarse, justamente por causa da acentuada sensibilidade dos primeiros anos.
Nesta época surge um verdadeiro sentimento estético: a criança gosta de tudo quanto é rítmico, adora contos e aventuras e sente especial prazer em desenhar. Assombrada com tudo o que vê ao seu redor e muitas vezes traumatizada pela autoridade dos pais e pela televisão que invadiu o lar com programas e notícias de violência, morte e dor, a criança necessita das atividades artísticas para manter sua saúde mental intacta.
O faz-de-conta pode ser a própria realidade infantil e o era uma vez constitui-se num poderoso processo de identificação capaz de eliminar parcial e/ou inteiramente conflitos e frustrações. (in op. cit., p.38)
* Terceira Infância: Pensamento racional e Socialização
(dos 7 aos 11 anos)

É o período em que Piaget situa o gradativo desaparecimento do infantil; e durante o qual o pensamento mágico é aos poucos substituído pelo pensamento racional. É a época da primeira escolaridade, - importantíssima para a garotada, porque a escola passa a ser o seu "espaço vital" decisivo. Nele, a criança espera encontrar respostas para inúmeras perguntas e curiosidades suas, principalmente devido à expectativa que os adultos criam em relação a essa experiência (= a entrada na escola). Expectativa em que se mesclam aspirações de natureza cultural (aquisição do Saber) e social (aquisição do status). É o período de consolidação do aprendizado da leitura e da escrita. A criança começa a pensar antes de agir, pois vai-se tornando consciente de seu ego e capaz de estabelecer novas relações entre si mesma e os outros.
Seu pensamento lógico organiza-se em formas concretas que permitem as operações mentais, Reportando-se às conclusões de Piaget com relação a esta fase evolutiva, M. Rodrigues diz:
O universo físico assume maior consciência e a criança adquire, através de um pensamento realmente operatório, as noções físicas de conservação da matéria, do peso, do volume, do tempo, do espaço, do movimento, e da velocidade. Não há, nesta fase, nenhum poder de abstração. Até a idade de 11 a 12 anos, "as operações da experiência infantil são unicamente concretas, isto é, visam somente à própria realidade e, em particular, os objetos tangíveis susceptíveis de serem manipulados e submetidos a experiências efetivas. Quando o pensamento da criança se afasta do real é porque substitui os objetos ausentes por sua representação mais ou menos viva, mas esta representação é acompanhada de crença e equivale ao real. (in op. cit., p.99)
Na literatura adequada a essa fase, Imaginação e Realidade devem se fundir. São particularmente adequados:
- os livros que realcem ações ou aventuras cujo sentido maior seja mostrar o "heróico": a coragem, o desassombro do herói diante do risco que ameaça a sua ação; (daí a atração pelo supermen da nossa época...);
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- livros que desenvolvam "situações" de aventura ou mistério,onde a inteligência e a afetividade sejam os fatores dinamizadores;
- estórias alegres, bem humoradas, principalmente as que realcem as astúcias do mais fraco a se defender do mais forte; ou as que ridicularizam o poder arbitrário dos que desrespeitam os direitos dos outros; (ou ainda as que põem em questão valores de conduta ou de moral já superados, etc.);
- narrativas populares, principalmente as exemplares;
- novelas policiais simples, onde a Inteligência vence o Mal;
- narrativas do cotidiano que representem o dia-a-dia do pequeno leitor, com suas alegrias,desejos, travessuras, obstáculos, frustações, sonhos, etc. (Incluem-se, aqui, o interesse pelos pequenos heróis ou heroínas das estórias-em-quadrinhos: Mônica, Mafalda, Luluzinha, Charlie Brown, Cebolinha, Snoopy, etc.).

* Pré-Adolescência: Pensamento reflexivo e Idealismo
(dos 11 aos 16 anos)

É a idade metafísica por excelência: o Eu é forte bastante para reconstruir o Universo e suficientemente grande para incorporá-lo. (Piaget)
A partir deste momento desenvolve-se o pensamento hipotético-deducativo e consequentemente a capacidade de abstração do menino  ( e da menina). Aprofunda-se o seu conhecimento do mundo com as noções abstratas de tempo, de espaço, de casualidade, número, semelhanças ou diferenças entre os elementos que compõem o seu universo concreto. E, principalmente, o valor das idéias e ideais.
Agora o exercício da reflexão é imperativo, O pensamento formal constrói as operações independentemente dos objetos. é a idade dos sistemas e das teorias. Enquanto o pensamento concreto é a representação de uma ação possível, "o formal é a representação de uma representação de ações possíveis." (Piaget)
As operações formais conferem um novo poder de pensamento.
/.../ No início do período esta nova capacidade é recebida entusiasticamente pelo (pré) adolescente que, egocentricamente, acredita na onipotência da reflexão, como se tudo no mundo devesse submeter-se Às teorias e não estas à realidade. (In M. Rodrigues, op. cit,. p.101)
Os livros adequados a esta fase são os que realçam a ação de heróis ou heroínas (ou personagens bem humanas) que se entregam à luta por um ideal humanitário. (Aprofunda-se a admiração pelos super-heróis ou super-heróinas das estórias-em-quadrinhos ou dos filmes da televisão.) Idealismo e emotividade são os fatores básicos procurados pelos pré-adolescentes, em suas leituras (ou nos filmes a que assistem). Assim, interessam-no especialmente os romances com grandes aventuras passadas no tempo antigo, ou romances sentimentais, românticos; biografias romanceadas de
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grandes homens e mulheres da História; mitos e lendas que expliquem a gênese de mundos, deuses e heróis; novelas de ficção científica (que antecipam o futuro...); contos realistas que enfoquem os deserdados da sorte ou os problemas que, no cotidiano, se opõem à plena realização de cada um; etc.

* Adolescência: Ânsia de viver- Aventura - Busca e Revolta
(a partir dos 17/18 anos)

Fenômeno biológico e social, o período da adolescência marca, para o ser, o fim do crescimento orgânico e início de profundas mudanças psicossociais. Por um lado, as rápidas mudanças de seu físico e o despertar da sexualidade ativa e por outro, o seu necessário ajustamento social ao mundo "adulto", trazem desequilíbrios e problemas peculiares. A inata curiosidade do ser funda-se agora no sentido de compreender a essência das coisas, o porquê dos fenômenos. A ânsia de viver funde-se com a ânsia do saber, como elemento sine qua non que leva ao poder e ao fazer almejados.
Neste nosso mundo em transformação, o período da adolescência tornou-se muito complexo e difícil de ser vencido com relativo equilíbrio. As contradições, duvidas, perplexidades e revoltas que, tradicionalmente, caracterizam essa importante etapa da evolução do indivíduo, são agora mais profundas e geram crises que ultrapassam os limites individuais para assumirem  dimensões de fenômeno coletivo (como o dos hippies, por exemplo).
Todas as pesquisas feitas ultimamente (nos campos da Psicologia, da Sociologia, da Seleção e Orientação Profissional; da Pedagogia; etc.) confirmam o estado conflituoso em que vivem os jovens (fundamente marcados pelas frustrações mais diversas: medo, insegurança, sentimento de culpa, revolta contra o Sistema estabelecido, conflitos familiares, decepções amorosas, etc.). Época profundamente contraditória, a adolescência vive alternadamente esse lado escuro dos conflitos e o lado luminoso da alegria de viver.
Apesar do caos afetivo em que se tornou seu mundo interior, o adolescente experimenta alegrias intensas. Da mesma forma como ele é uma vibração total nas angústias, na violência, no medo, nas contradições e nas dúvidas, ele mostra uma vitalidade extraordinária ao experimentar o prazer e a felicidade.
/.../
O jovem experimenta intensa felicidade sobretudo quando pode criar coisas e pensamentos originais, trabalhar inteligentemente e afirmar-se social e sexualmente como uma identidade singular. /.../ O amor também produz no adolescente um estado permanente de "alvoroço" e felicidade. Entretanto, simultaneamente às alegrias do amor, sobrevivem enormes devastadoras a insegurança, o medo, a angústia e a dúvida. (M. Rodrigues, op. cit., p. 135)
Claro está que esse é o possível padrão do adolescente atual... mas em se tratando de seres humanos, nada é definitivo ou absoluto. E todos nós sabemos que existem muitos e muitos adolescentes tranquilos, que vivem
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experiências positivas ou negativas com naturais alegrias ou tristezas, mas sem conflitos devastadores ou desajustes profundos com o meio familiar ou social. Entretanto, os analistas e estudiosos preocupam-se apenas com aqueles (adolescentes ou adultos) que refletem  as crises de transformações. Os demais que vivem, quase inconscientemente as mudanças (e talvez seja a maioria) não são "problemáticos" e por isso ficam fora das análises...
Quanto à literatura mais adequada a essa fase, cada vez se torna mais difícil delimitar. Principalmente devido à mudança dos costumes e à consequente aceleração da maturidade mental ou psíquica dos meninos e meninas. Todos sabemos de leituras "adultas" que ainda há 20 ou 30 anos eram proibidas para adolescentes (e em geral às mulheres) e hoje são considerado "água com açúcar". Por outro lado, há bem pouco tempo havia uma leitura para "homens" e outra para "mulheres". Em certos meios provincianos essa discriminação ainda existe, mas a tendência geral é a de nivelar as leituras pelo interesse que possam ter para ambos os sexos.  De qualquer forma, várias pesquisas recentes mostram que ainda persiste uma tendência bastante acentuada por parte das jovens pela literatura amorosa e dos rapazes pela literatura de aventuras ou mistério. O que não quer dizer que os jovens não se interessem por estórias amorosas ou que as jovens não se agradem das aventuras.
No geral, pode-se dizer que tanto a literatura realista como a fantasia atraem o adolescente, desde que ponham em jogo "situações" humanas onde as paixões se misturam às aventuras; onde se denunciem os obstáculos que se levantam contra a realização do ser; onde se mostre a grandeza ou o poder de realização (em qualquer setor) de heróis e heroínas que se afirmam contra o mundo. Também agradam as estórias humorísticas; a literatura parodística ou satírica, os livros de mistérios; os romances policiais; a ficção científica; as biografias (quando revelem a personalidade profunda do biografado); etc. Alguns sentem-se atraídos pela Poesia e quase todos pelo Teatro. Todos "curtem" a música (ou melhor o som...). Na área especificamente literária, cada vez há maior atração pelos livros que tratem  das relações sexuais. Pode-se dizer que, hoje, o tema mais atraente é o Sexo e todas as liberações que este século trouxe.
Mas no cômputo geral das pesquisas, confirmam-se que a leitura literária é o menos atraente dos entretenimentos para o adolescente (e para o adulto). Perde de longe para a televisão, os esportes, cinema, praia, teatro, música, etc.
Mais uma razão para a leitura ser redescoberta, desde o estágio infantil, como fonte gratificante de conhecimento da vida... para lá de ser divertimento ou prazer deve oferecer algo mais significativo para o leitor.
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A Literatura Infantil Ideal: Realista ou Fantasista?


Outro dos problemas que têm dividido opiniões e acirrado discussões é o da possível definição do que seria ideal, hoje, para uma literatura destinada às crianças. Dentre os aspectos que mais polêmicas têm levantado estão as duas formas básicas de literatura: a realista e a fantasista. Conforme a época, os pratos da balança oscilam: ora é o Realismo que se impõe como ideal, ora é a Fantasia ou a Imaginação.

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