terça-feira, 26 de julho de 2011

Trechos do livro: O que é Literatura Infantil por Lígia Cadermartori







O que é Literatura Infantil
(Lígia Cadermartori)


Literatura Infantil em Voga

Vivia-se, na década de 80, no Brasil, o boom da literatura infantil, manifestado através por meio de uma venda sem precendentes de livros para crianças, na proliferação de associações voltadas ao incentivo da leitura infantil, no surto de encontros, seminários e congressos a respeito do assunto e na inclusão de cursos de literatura infantil na programação das universidades. O fenômeno, naturalmente, não era gratuito, alguns fatores agiram de forma determinante sobre ele.
Os altos índices de analfabetismo têm-se constituído em sério impedimento para que o Brasil ingresse em uma efetiva fase de desenvolvimento. Na década de 1970, o governo Médici pretendeu debelar o mal com a alfabetização de adultos. Recorreu ao Mobral, Movimento Brasileiro de Alfabetização, criado em 1967, no governo Costa e Silva, mas que só conseguiu se expandir no governo seguinte.
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Com o do Mobral, o governo esperava poder erradicar, a curto prazo, a condição de iletrado que atingia metade da população. Mas o Mobral fracassou, conforme atestam os dados do IBGE, Instituto Brasileiro de Geografia Estatística, também órgão do governo.
A década de 1960 havia começado de forma culturalmente promissora: iniciava-se um período cultural eminentemente crítico e polêmico. Com o endurecimento do regime, a partir de 1964, as promesssas dos primeiros anos da década não se confirmaram. A cultura brasileira sofreu os efeitos da repressão: artistas e intelectuais deixaram o país e os que ficaram tornaram-se malabaristas da alegoria e da alusão para dizer o que não podia ser dito.
O ensino superior apresentou crescimento acentuado, especialmente o do setor particular. Surgiram novas faculdades, aumentando o número de vagas. Contudo, sofríamos uma evasão de pensadores e amordaçamento da expressão. O crescimento não era qualitativo, massificava-se a educação superior sem democratizá-la. A partir de 1969, simplifica-se o vestibular. Nunca foi tão fácil ser universitário.
Nos anos do "milagre econômico", no começo dos anos 70, houve pouca preocupação de 1960 a 1973, o desenvolvimento do ensino primário foi três vezes inferior ao do ginasial e quatro vezes menor do que o do colegial, etapas de ensino secundário e médio anteriores à universidade.
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Pretendia-se erradicar a situação do subdesenvolvimento educacional por meio da qualidade. AS televisões educativas do governo, por outro lado, e, mais tarde, o telecurso de iniciativa privada, surgiram como uma alternativa moderna à educação livresca, fruto do avanço tecnológico.
Apesar disso, nos anos de 1970, segundo os dados do Sindicato Nacional dos Editores de Livros (SNEL), o negócio com o livro proliferou. A que atribuir isso? Isso pode ser atribuído a dois fatores: primeiro, à crescente ampliação da classe média, aumentando o número dos consumidores de livros e, segundo, ao aumento do nível de escolaridade, como decorrência da reforma do ensino. Os níveis de evasão escolar, contudo, continuavam alarmantes.
O problema do subdesenvolvimento cultural, mostrou a experiência, não se resolvia pela recuperação das condições de iletrado do adulto - pelo menos, não da maneira como foi feito, tendo como resultado pessoas que conseguiam desenhar o nome - nem com a facilidade de ingresso na universidade, dando acesso a que sentassem em bancos acadêmicos alunos sem condições de participar da investigação e do debate universitário.
Mudou-se, então, a estratégia; a atenção, o cuidado e a esperança voltaram-se para o ensino básico, reconhecido como decisivo para a educação. E a ação pedagógica, junto à criança, voltou a privilegiar o livro como elemento imprescindível ao crescimento intelectual
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 e à afirmação cultural. Surgem programas culturais de promoção da leitura, tanto de iniciativa privada quanto de iniciativa do Estado.
É nesse cenário que a literatura infantil passou a ser, na década de 1980, um filão para estudos, seminários e publicações. Na década de 1970, uma outra produção gráfica, destinada à criança, já havim merecido atenção: os quadrinhos. O desenvolvimento da comunicação industrial no país, com o consequente aumento do raio de ação dos mass media, ao lado do surto semiológico que se alastrou pelas universidades na época, privilegiou o estudo de sistemas de signos até então considerados indignos de atenção.
Os quadrinhos foram enfocados sob o ponto de vista ideológico, estético, histórico, semiológico. Foram caracterizados, tipificados e hierarquizados. Mas não foram incorporados pela preocupação cultural e pedagógica que faz com que, hoje, os livros infantis vendam mais que os quadrinhos.
Em comum com as histórias em quadrinhos, a literatura infantil apresenta o fato de destinar-se a um leitor mirim e a condição de não desfrutar do status da obra de arte. Por muito tempo segregado como um subgênero, o texto destinado à criança passou a ser, nos últimos tempos, alvo de atenções que nunca recebeu e, diferentemente do que se verificou em relação aos quadrinhos, o debate não se circunscreve ao exame 
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das propriedades do gênero, mas envolve questão de educação, além da de mercado.
Do ponto de vista da educação, observa-se uma união de esforços de educadores dos diferentes níveis de ensino, do ensino básico à universidade, no sentido de promover a leitura para resgatar faltas do nosso sistema de educação. A aproximação do ensino superior ao ensino básico é recente. O afastamento entre os dois níveis de ensino - básico e superior - vem de muito tempo e pode ser atribuído a várias causas. A principal entre elas talvez seja a sofisticação do ensino superior de letras, que passou de culto à erudição histórica e crítica para a intoxicação teórica provocada pela implantação dos cursos de pós-graduação no país, período coincidente com o cerceamento do debate político, com o refreamento das análises sociológicos e, consequentemente, com a impossibilidade de uma reflexão responsável sobre a situação da escola brasileira.
Veja-se que não se trata de discutir qual é a função primeira dos cursos de letras, mas não esquecer que, num país do Terceiro Mundo, onde a educação não atingiu um nível sequer razoável de desenvolvimento, fugir de determinadas questões que podem contribuir para a superação desse estágio seria irresponsabilidade política.
Como decorrência da assunção, pela universidade, dos problemas que afetam o ensino básico, têm surgido, no país, instituições que congregam pesquisadores 
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acadêmicos voltados ao estudo e à promoção da leitura e da literatura infantil em seus aspectos literários, sociológicos, psicanalíticos, educacionais.
No Rio Grande do Sul, o Centro de Pesquisas Literárias da Pontifíca Universidade Católica do Rio Grande do Sul e a Associação Internacional de Leitura  Conselho Brasil Sul trazem à cena da investigação sobre a leitura infantil a questão da recepção e da formação de leitores.
 Em São Paulo, na realização do III Congresso de Leitura, promovido pela Universidade de Campinas, em 1982, é fundada a Associação de Leitura do Brasil com o objetivo de democratizar e melhorar as condições de leitura do povo brasileiro. Com tal escopo, mesmo não tendo, em princípio, como alvo a literatura infantil, o trabalho dessa Associação acaba por privilegiá-la como etapa fundamental para a formação do leitor.
No Rio de Janeiro, a Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil, criada em 1968, expande sua atuação na década de 1980, com publicações, cursos e seminários e do projeto "Ciranda de Livros", distribuição de livros a escolas carentes, promoção conjunta da Fundação Roberto Marinho e da empresa Hoechst do Brasil.
A Fundação de Assistência ao Estudante, do Ministério da Educação, nessa mesma década ao lado do  seu programa de livro didático - PLIDEF -, cria o Programa Salas de Leitura para distribuir livros de literatura infantil às escolas de ensino fundamental II do país. 
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São tentativas de democratização do livro num país em que as restrições econômicas da população só permitem esse tipo de investimento para uma faixa escassa. Portanto, são iniciativas que só se dimensionam em países não desenvolvidos.
Paralelamente a esses empreendimentos, a crítica literária acadêmica e a jornalística toma como objeto de análise textos de literatura infantil que conquistam, com isso, um espaço a que não tinham acesso.
Por outro lado, os cursos de pós-graduação investigam o assunto, conferindo rigor ao estudo de um tema considerado leve. Todos esses fatores põem a literatura infantil em pauta como um novo investimento em termos de educação brasileira.
O livro, porém, é um objeto de mercado. Seus produtores são agentes que se inserem na dinâmica do mercado do sistema capitalista e tendem à produção do mais lucrativo. À medida que cresce o movimento educacional em torno do livro para a criança, este, que é produzido para o mercado, e dele recebe cerceamentos ou incentivos, responde em proporção à demanda. E é assim que livro infantil passa a ser " brinde de sapólio" e que lojas populares de tecidos passam a distribuir histórias impressas para os filhos de suas clientelas. As preocupações pedagógicas coincidem com o descobrimento, pelo mercado, da criança como móvel do consumo. A faca e o queijo.
O mercado, naturalmente, apresenta-se tão diversificado para esse produto como para os demais.
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Ao lado de edições cuidadosas, tanto do ponto de vista gráfico quanto da estética literária, há o impresso que, destinado ao público infantil, não tem, contudo, compromisso com os traços que afirmam a literatura infantil como um gênero literário. Portanto, nem tudo que circula como livro destinado à criança é, de fato, literatura infantil. Há, no mercado, muita gratuidade e produções que não vão além do lugar-comum estético e ideológico.
O inegável vínculo da literatura infantil com a educação não deve conduzir a que se pense que o texto para a criança passou do esquecimento para o papel de subsidiário da educação formal. Sua natureza literária já o coloca além dos objetivos pedagógicos comprometidos com a legimitização das instituições, costumes e crenças que a geração adulta quer legar à infantil.
A escola é lugar de consagração do status quo, sua vocação é acentuadamente conservadora, pois incumbe-se de garantir a permanência do que já está estabelecido. A literatura, por sua vez, propicia uma re-organização das percepções do mundo e, desse modo, possibilita uma nova ordenação das experiências existenciais da criança. A convivência com os textos literários provoca a formação de novos padrões e o desenvolvimento do senso crítico.
Não foi, contudo, movida por essa preocupação que a escola, inicialmente, voltou-se à literatura infantil. A educação formal voltou-se ao texto infantil 
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despertada por interesses mais imediatos. Sendo inegável o abalo do ensino da língua portuguesa, a literatura infantil passou a ser vista como instrumento de uma possível expansão do escasso domínio linguístico dos alunos, um ato de fé no slogan "quem lê, sabe escrever".
A preocupação conteudística estava ao lado da preocupação com o ensino da língua: o texto infantil responderia à necessidade de suprir as grandes lacunas intelectuais de seu destinatário, pela presença, em alta proporção, nos textos infantis, de elementos formativos e informativos. Ora, se a função da literatura parasse aí, seu estatuto seria paradidático, ela não seria mais do que um instrumento útil à instituição escolar. A sua importância, porém, se dimensiona à medida que questiona os convencionalismos de interpretação e comportamento e apresenta novas perspectivas.
Se, adquirindo o hábito de leitura, a criança passa a escrever melhor e a dispor de um repertório mais amplo de informações, a principal que a literatura cumpre junto a seu leitor é a apresentação de novas possibilidades existenciais, sociais, políticas e educacionais. É nessa dimensão que ela se constitui em meio emancipatório que a escola e a família,como instituições, não podem oferecer.
A partir desses fatores é que se pode avaliar o lugar que a literatura infantil ocupa, hoje, no Brasil, e sua relação direta com o processo de democratização por que passa o país, uma vez que se liga com a preocupação 
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de formar gerações capazes de pensamento crítico e de superar os limites das experiências já adquiridas.
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Começou com Perrault

A literatura infantil tem como parâmetro contos consagrados pelo público mirim de diferentes épocas que, por terem vencido tantos testes de recepção, fornecem aos pósteros referências a respeito da constituição da tônica literária do texto destinado à criança. No século XVII, o francês Charles Perrault (Cinderela, Chapeuzinho Vermelho) coleta contos e lendas da Idade Média e adapta-os, constituindo os chamados contos de fadas, por tanto tempo paradigma do gênero infantil.
No século XIX, outra coleta de contos populares é realizada, na Alemanha, pelos irmãos Grimm (João e Maria, Rapunzel), alargando a antologia dos contos de fadas. Através de soluções narrativas diversas, o dinamarquês Christian Andersen (O patinho feio, Os trajes do imperador), o italiano Collodi (Pinóquio), o inglês Lewis Carroll (Alice no país das maravilhas), o americano
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Frank Baum (O mágico de Oz), o escocês James Barrie (Peter Pan) constituem-se em padrões de literatura infantil.
Questões relativas à obra de Charles Perrault, frequentemente apontado como o iniciador da literatura infantil, vinculam-se a pontos básicos da questão da natureza da literatura infantil como, por exemplo, a preocupação com o didático e a relação com o popular.
A coleção dos textos de Perrault constitui-se em um dos textos mais célebres da literatura francesa e, também, um dos textos mais referidos e menos comentados pela crítica literária, quer na sua dimensão de arte, quer como documento. Na verdade, a análise dos contos de Perrault requer enfoque interdisciplinar sendo que os problemas que suscita não se restringem à teoria da literatura, à sociologia, à psicanálise ou ao folclore, mas reclamam uma união desses enfoques que relacione os diversos elementos que integram o texto e resolva as inúmeras contradições com que o analista se defronta.
Charles Perrault, coletor de contos populares, realiza seu trabalho após a Fronde, movimento popular contra o governo absolutista no reinado de Luís XIV, cuja repressão deixou marcas de terror na França. Os contos chegam  à família Perrault através de contadores que, na época, se integravam à vida doméstica como servos. Considere-se que se trata de um momento histórico de grande tensão entre as classes. O burguês
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Perrault despreza o povo e as superstições populares e, como homem culto, as ironiza. Seus contos, em alguns momentos, caracterizava-se por um certo sarcasmo em relação ao popular. Ao mesmo tempo, são marcados pela preocupação de fazer uma arte moralizante através de uma literatura pedagógica.

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